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Oportunidades

Datando rochas, reduzindo riscos: nova abordagem pode refinar a exploração de petróleo

Projeto financiado pela Petrobras e desenvolvido no CEPETRO/Unicamp busca aumentar a precisão na datação de rochas sedimentares e aprimorar modelos exploratórios.

Saber quando uma rocha se formou — e quando foi transformada ao longo do tempo — pode reduzir incertezas críticas na exploração de petróleo. Na indústria de óleo e gás, a capacidade de datar com precisão as camadas sedimentares é um dos fatores que sustentam a correlação entre poços, a previsão de novas áreas e o refinamento dos modelos de reservatórios.

O problema é que justamente as rochas onde o petróleo se acumula — as sedimentares — sempre estiveram entre as mais difíceis de datar. “Durante muito tempo, a geocronologia ficou restrita a minerais de origem magmática. Já as rochas sedimentares, que são o principal arquivo dos sistemas petrolíferos, apresentavam limitações técnicas importantes”, explica o geólogo Bernardo Tavares Freitas, do Instituto de Geociências da Universidade Estadual de Campinas.

Sem datação direta, a indústria avançou apoiada principalmente em fósseis — usados para identificar e correlacionar camadas de mesma idade (bioestratigrafia) — e em outros métodos indiretos, como correlações entre propriedades químicas (quimioestratigrafia) e magnéticas (magnetostratigrafia) das rochas.

Uma nova fronteira – Nos últimos dez anos, esse cenário começou a mudar. Avanços tecnológicos passaram a permitir a datação de minerais carbonáticos — como calcita e dolomita — formados dentro das próprias rochas sedimentares. Isso abre a possibilidade de atribuir idades diretamente às camadas que compõem os reservatórios.

O desafio, no entanto, está longe de resolvido. Esses minerais possuem baixos teores de urânio e são mais suscetíveis a alterações ao longo do tempo, o que gera resultados frequentemente dispersos e com maior incerteza.  “Em muitos casos, você obtém uma série de idades e precisa interpretar o que, de fato, representa a história daquele sistema”, afirma Freitas.

Do laboratório ao reservatório – É nesse contexto que se insere um projeto desenvolvido no âmbito do Centro de Estudos de Petróleo e Energia (CEPETRO), da Unicamp, com financiamento da Petrobras e investimento próximo de R$ 10 milhões.

A pesquisa tem um foco claro: aumentar a precisão e a confiabilidade da datação de rochas sedimentares. Mais do que gerar novas idades, o objetivo é entender por que alguns resultados são consistentes e outros não — um ponto crítico para transformar a técnica em ferramenta operacional.

Para isso, a equipe combina múltiplas técnicas de análise — da microscopia eletrônica a mapeamentos espectrais e isotópicos — para construir um retrato detalhado da composição e da textura das rochas. Esses dados são integrados por meio de algoritmos que buscam identificar padrões associados à qualidade dos resultados geocronológicos.

A expectativa é que esse cruzamento permita, no futuro, prever quais amostras têm maior potencial de gerar idades confiáveis — e, eventualmente, reduzir o uso de técnicas mais complexas e destrutivas.

O que muda para a indústria – Na prática, a evolução da geocronologia aplicada a rochas sedimentares tem impacto direto em aspectos centrais da exploração e do desenvolvimento de reservatórios, especialmente em sistemas complexos como os do pré-sal brasileiro. Ao associar idades a determinados pacotes de rochas, torna-se possível melhorar a correlação entre áreas já conhecidas e regiões ainda não perfuradas, ampliando a capacidade de prever onde pode haver petróleo e reduzindo incertezas na prospecção.

Ao mesmo tempo, a datação de processos como cimentação e dissolução — que ao longo do tempo fecham ou abrem os poros da rocha — permite reconstruir a evolução das propriedades petrofísicas do reservatório. Isso inclui estimar quando o petróleo entrou no sistema, em relação a essas transformações — uma informação-chave para modelagem e produção.

“O nível de refinamento que isso pode trazer para o entendimento dos reservatórios é muito alto”, afirma o pesquisador.

O desafio da precisão – A indústria de petróleo já opera com elevado grau de sofisticação tecnológica. Nesse contexto, avanços como o da geocronologia de carbonatos funcionam como ajustes finos — mas, aplicados a sistemas de grande escala, podem gerar impactos significativos na eficiência e na recuperação de hidrocarbonetos.

Hoje, a datação de carbonatos ainda trabalha com incertezas que podem variar de 3% a 10% da idade — o que, em escalas geológicas, representa milhões de anos. O projeto busca reduzir essa incerteza e aproximar a técnica dos níveis de resolução já alcançados em minerais magmáticos. A perspectiva, segundo Freitas, é que, ao longo deste século, a obtenção de idades radiométricas a partir de rochas sedimentares avance para resoluções cada vez mais finas — possivelmente na escala de centenas de milhares de anos.

Embora o foco do projeto seja a indústria de energia, o avanço na datação de rochas sedimentares tem implicações muito mais amplas. Essas rochas registram a maior parte da história da Terra — incluindo eventos como mudanças climáticas globais, extinções em massa e a evolução da vida. “As rochas sedimentares são o principal arquivo da história do planeta — e agora estamos começando a conseguir datá-lo diretamente”, diz o pesquisador.

O projeto tem duração prevista de quatro anos, com conclusão estimada para 2029, e reúne uma equipe multidisciplinar envolvendo cerca de dez pesquisadores entre docentes, pós-doutorandos e alunos de pós-graduação, além de especialistas vinculados ao Laboratório Nacional de Luz Síncrotron e a diferentes laboratórios do Instituto de Geociências da Unicamp.

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