Centro avança com modelo integrado que combina gestão preventiva, atuação operacional e comunicação contínua — com iniciativas como o mascote Petrinho, premiado pela Unicamp.
A consolidação da Comissão de Segurança, Saúde e Meio Ambiente (SSMA) e a criação de uma Comissão de Espaço Físico e Infraestrutura (CEFI), marcam um novo momento na gestão de segurança do Centro de Estudos de Petróleo e Energia (CEPETRO), da Unicamp. Com atuação mais integrada e preventiva, o Centro passou a antecipar riscos ainda na fase de planejamento dos projetos, ampliou rotinas de inspeção e treinamentos e incorporou estratégias contínuas de comunicação — como a campanha do mascote Petrinho — para fortalecer a cultura de segurança nos laboratórios.
Esse modelo é resultado de um processo que começou anos antes. Em 2016, a preocupação com resíduos levou à criação de uma primeira comissão, ainda com foco regulatório para a destinação dos resíduos gerados pelas pesquisas. Com o crescimento do centro e o aumento das parcerias com empresas, novas exigências passaram a surgir, especialmente relacionadas à segurança do trabalho. A resposta veio em 2020, com criação da Comissão de SSMA, que passou a concentrar os temas de segurança, saúde e meio ambiente em uma única instância.
Hoje, a comissão reúne cerca de 25 representantes de diferentes áreas do CEPETRO e funciona como um espaço permanente de articulação. Entre as cadeiras, está a da vice-diretoria do Centro, o que garante peso institucional às decisões e contribui para a continuidade das ações ao longo das gestões. É ali que se discutem problemas, se avaliam riscos e se ajustam práticas, sempre com a participação de quem está diretamente envolvido na rotina dos laboratórios.
Gestão integrada – A criação da CEFI, em 2025, ampliou esse arranjo ao incorporar uma etapa que antes praticamente não existia no ambiente acadêmico: a análise prévia dos projetos. A partir dela, aspectos como espaço físico, previsão de infraestrutura (elétrica, hidráulica e dados), requisitos de segurança (do local e da equipe) e destinação de resíduos passam a ser avaliados antes da execução dos experimentos. “Hoje conseguimos atuar antes mesmo da execução, ajudando o pesquisador a prever necessidades e evitar problemas futuros”, explica a engenheira Natache do Socorro Dias Arrifano Sassim.
Essa antecipação também mudou a forma de lidar com o risco dentro da pesquisa. Diferentemente da indústria, onde a meta é minimizar a ocorrência de incidentes, no ambiente de pesquisas acadêmico o foco está no gerenciamento rigoroso das condições experimentais — investigando o motivo das ocorrências e garantindo que os processos sejam conduzidos dentro de limites seguros. “Mais do que reduzir ocorrências, nosso objetivo é aprender com cada incidente e aperfeiçoar continuamente os processos de trabalho”, afirma Natache Sassim.
Na prática, isso significa definir e testar limites operacionais antes da execução dos experimentos, monitorar continuamente as condições de operação e interromper imediatamente qualquer situação fora do previsto. Testes de pressão, ajustes de parâmetros e etapas de comissionamento são conduzidos justamente para identificar falhas potenciais e corrigi-las antes que evoluam para problemas maiores. Esse processo contínuo de análise e ajuste é o que permite manter as atividades sob controle e reduzir a ocorrência de incidentes e acidentes.
Rotina técnica – No dia a dia, essa lógica ganha forma com a atuação direta da área de Segurança do Trabalho, com acompanhamento realizado pela técnica Simone Zuim. As inspeções nos laboratórios passaram a seguir checklists estruturados, inspirados em padrões adotados por empresas do setor energético, e são realizadas, em média, a cada seis meses — ou sempre que há mudanças relevantes nos experimentos.
Além das inspeções internas, auditorias conduzidas por empresas parceiras acontecem ao longo do ano, trazendo parâmetros externos e apontando oportunidades de melhoria. Em alguns casos, essas recomendações resultaram no aumento da frequência de treinamentos e no reforço de práticas preventivas.
Cultura ativa – A formação contínua é um dos pilares desse sistema. Em um ambiente marcado pela alta rotatividade de estudantes de pós-graduação, a cultura de segurança precisa ser constantemente reforçada. Novos integrantes passam por processos de integração, treinamentos obrigatórios e acompanhamento nas atividades laboratoriais, enquanto ações periódicas levam orientações diretamente às equipes, adaptadas às características de cada experimento.
“A cultura de segurança não se instala de uma vez — ela precisa ser construída e reforçada o tempo todo”, afirma Simone Zuim.
Foi nesse esforço de manter o tema presente no cotidiano que surgiu o mascote “Petrinho”, que desde 2024 passou a levar, semanalmente, orientações de segurança, saúde e meio ambiente por e-mail e redes sociais. As mensagens tratam de situações práticas — uso de equipamentos e atenção a riscos simples — e já alcançam mais de duas mil pessoas dentro da comunidade do centro. A iniciativa foi reconhecida com o Prêmio PAEPE da Unicamp em 2025, que valoriza projetos com impacto institucional na universidade.
Além da comunicação, o CEPETRO também passou a estimular a participação direta da comunidade por meio de um canal de observação de segurança. Uma urna instalada na recepção do prédio principal permite que qualquer pessoa registre — inclusive de forma anônima — situações de risco identificadas no dia a dia. Algumas dessas contribuições já resultaram em ajustes simples, mas relevantes, nas condições de trabalho.
O CEPETRO já mantém registros históricos de acidentes e incidentes, alunos segurados em atividades de laboratório, capacitações realizadas, que vêm sendo atualizados ao longo do tempo, e agora avança na consolidação desses dados em indicadores mais estruturados, capazes de acompanhar com maior precisão a evolução das práticas de segurança.
O que já se observa, no entanto, é uma mudança consistente de abordagem. A segurança deixou de ocupar um papel periférico e passou a ser incorporada desde o planejamento dos projetos até a rotina dos laboratórios, integrando-se também à formação dos profissionais que passam pelo centro. Mais do que um conjunto de normas, trata-se de um sistema em amadurecimento, que combina gestão de riscos, aprendizado contínuo e engajamento da comunidade.
