Carla Ferreira construiu uma carreira internacional que conecta engenharia, petróleo e inteligência artificial — hoje aplicada à avaliação de riscos e confiabilidade de sistemas críticos.
A engenheira brasileira Carla Ferreira, ex-pesquisadora do Centro de Estudos de Petróleo e Energia (CEPETRO) da Unicamp, foi incluída na lista Norges 50 fremste tech-kvinner 2026, que reúne as 50 mulheres de maior destaque na área de tecnologia na Noruega. O reconhecimento foi anunciado no dia 6 de março e considera critérios como contribuição tecnológica, impacto do trabalho e promoção da diversidade no setor.
A lista não estabelece um ranking entre as selecionadas — o objetivo é justamente ampliar a visibilidade de diferentes perfis e trajetórias femininas na tecnologia, incluindo profissionais de múltiplas áreas de atuação. No total, cerca de 550 mulheres foram indicadas, das quais apenas 50 foram selecionadas.
Para a pesquisadora, o reconhecimento vai além de uma conquista individual. “A ideia é criar referências próximas, pessoas que estão no dia a dia das organizações, para inspirar outras mulheres a entrarem nesse setor”, afirma.
Formação internacional – A trajetória de Carla Ferreira está longe de ser linear — e talvez seja justamente isso que a torna representativa. Nascida em Tucuruí (PA), em uma família ligada à construção de usinas hidrelétricas, ela iniciou sua formação em Engenharia Civil na Universidade Estadual de Goiás. O interesse por infraestrutura e energia a levou ao mestrado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com foco em rodovias e obras civis.
O ponto de inflexão veio no início da década de 2010, com o avanço do pré-sal no Brasil. Atenta às transformações do setor energético, ela decidiu mudar de área — uma decisão que exigiu recomeço acadêmico.
Ferreira deixou o mercado de trabalho e ingressou no doutorado na Unicamp, sob orientação do professor Denis Schiozer, no CEPETRO, migrando para a engenharia de petróleo e, mais especificamente, para a área de simulação de reservatórios.
“Eu precisava voltar para a base, entender os fundamentos. Foi uma mudança de carreira completa”, relembra.
Ponto de virada – Foi no CEPETRO que ela consolidou sua transição para o setor de petróleo, atuando inicialmente no doutorado e, posteriormente, como pesquisadora em projetos com empresas como Petrobras e Shell.
Sua pesquisa se concentrou em simulação de reservatórios — uma ferramenta essencial para prever o comportamento de campos de petróleo, mas marcada por alta complexidade e incerteza.
O ambiente do centro também abriu portas para a internacionalização. Durante o doutorado, Ferreira realizou um período de pesquisa na Universidade de Durham, no Reino Unido, onde teve contato mais aprofundado com análise estatística — base conceitual que mais tarde se conectaria ao uso de inteligência artificial.
Após a conclusão do doutorado, e em meio à crise do petróleo, o CEPETRO teve papel decisivo na continuidade de sua trajetória acadêmica, ao oferecer a oportunidade de seguir como pesquisadora.
A experiência internacional se consolidou no pós-doutorado, novamente em Durham, em um projeto conjunto entre a universidade britânica, a Unicamp e a Shell.
Nesse período, Carla passou a trabalhar na substituição de simulações complexas por modelos matemáticos capazes de rodar em segundos — um avanço significativo frente às horas necessárias para uma única simulação tradicional.
Na prática, isso significa usar modelos estatísticos — hoje associados à inteligência artificial — para representar o comportamento de reservatórios e reduzir incertezas em decisões operacionais. “Você sai de um modelo que demora horas para rodar para algo que consegue testar inúmeras possibilidades em segundos”, explica.

Da engenharia à IA – Após o pós-doutorado, a pesquisadora buscou oportunidades internacionais e chegou à Noruega em 2020, ao ingressar na DNV, uma das principais empresas globais de gestão de risco. Inicialmente atuando em óleo e gás, sua área de pesquisa evoluiu para um campo mais amplo e estratégico: a confiabilidade da inteligência artificial em sistemas críticos.
Hoje, ela lidera um time de pesquisa na DNV cujo trabalho envolve o desenvolvimento de metodologias para avaliar riscos em sistemas que utilizam IA — especialmente em contextos nos quais falhas podem ter consequências graves para o meio ambiente, a segurança ou a infraestrutura.
Um exemplo está na inspeção de navios: drones equipados com visão computacional identificam corrosões e falhas estruturais. O desafio não é apenas detectar problemas, mas garantir que o sistema seja confiável — inclusive quando encontra situações para as quais não foi treinado.
“Não basta a inteligência artificial dar uma resposta. Ela precisa indicar o nível de certeza dessa resposta”, explica.
Outro campo de aplicação envolve sistemas autônomos, como embarcações que tomam decisões com base em múltiplos algoritmos e sensores. Nesses casos, o risco não está apenas em cada componente isolado, mas na interação entre eles — um fenômeno conhecido como comportamento emergente.
Transformação em curso – A inclusão de Carla Ferreira entre as principais mulheres de tecnologia da Noruega reflete não apenas sua trajetória individual, mas também uma transformação mais ampla no perfil das engenharias e das ciências aplicadas.
Sua carreira conecta áreas tradicionalmente separadas — engenharia civil, petróleo, estatística e inteligência artificial — e ilustra como a inovação tecnológica hoje depende da integração entre disciplinas.
Também evidencia o papel de centros de pesquisa como o CEPETRO na formação de profissionais capazes de atuar em contextos globais e em fronteiras tecnológicas emergentes.
Mesmo após anos no exterior, Carla mantém vínculos com o Brasil e acompanha iniciativas como o avanço da inteligência artificial aplicada à engenharia no país.
Para ela, o reconhecimento internacional reforça uma mensagem simples: trajetórias não lineares são cada vez mais naturais — e muitas vezes necessárias em um mundo em constante transformação.
