Em palestra realizada na Unicamp, Marcelo Souza de Castro destacou que o mundo vive um processo de adição energética e que a descarbonização precisa considerar a dimensão física, econômica e industrial do sistema energético global.
A transição energética global não pode ser tratada como um processo simples de substituição de fontes fósseis por renováveis. Essa foi a principal mensagem apresentada pelo professor Marcelo Souza de Castro, diretor do Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO), da Unicamp, durante palestra no evento Café COCEN, promovido pela Coordenadoria de Centros e Núcleos Interdisciplinares de Pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (COCEN/UNICAMP).
Adição energética – Em sua exposição, Castro argumentou que o mundo vive, na prática, um processo de adição energética, no qual novas fontes são incorporadas às matrizes sem que as anteriores sejam imediatamente abandonadas. Segundo ele, essa dinâmica está associada ao crescimento contínuo da demanda global por energia. Atualmente, o mundo consome mais de 160 mil terawatts-hora (TWh) de energia primária por ano, dos quais cerca de 80% ainda provêm de combustíveis fósseis. Mesmo nos cenários mais ambiciosos de mitigação climática, a demanda total tende a crescer nas próximas décadas, impulsionada sobretudo por economias emergentes.
O diretor do CEPETRO também ressaltou que energia não se confunde com eletricidade. Como vetor energético, a eletricidade depende de fontes primárias que, em escala global, seguem sendo majoritariamente fósseis. Carvão, petróleo e gás natural respondem por mais de 60% da geração elétrica mundial, o que torna a estratégia de eletrificação ampla mais complexa do que muitas vezes se apresenta no debate público. Substituir o volume atual de energia fóssil exigiria uma expansão sem precedentes das fontes de baixo carbono, em um cenário de crescimento da demanda e restrições de infraestrutura.
Escala global – Outro eixo da palestra foi a dimensão geopolítica da energia. Castro observou que conflitos recentes recolocaram a segurança energética no centro das decisões estratégicas de diversos países, levando inclusive à retomada pontual de fontes fósseis em algumas regiões. Ele destacou ainda a desigualdade estrutural entre países: enquanto economias desenvolvidas apresentam alto consumo de energia per capita e maior capacidade de investimento, regiões como a África e o Sul da Ásia consomem apenas uma fração desse volume, o que torna o acesso à energia um desafio social e econômico fundamental.
O diretor do CEPETRO enfatizou também a função estrutural do petróleo na economia contemporânea. Muito além de combustível, ele sustenta a base da petroquímica e está presente em mais de 80% dos produtos manufaturados, incluindo fertilizantes, medicamentos, plásticos, eletrônicos e materiais hospitalares. A substituição dessa base industrial, afirmou, não se resume à troca da matriz elétrica, mas envolve transformações profundas, de longo prazo, na estrutura produtiva global.
Realismo e planejamento – Para Castro, reconhecer os limites físicos, técnicos e econômicos do sistema energético não significa negar a transição, mas torná-la exequível. Em um cenário de crescimento contínuo da demanda global por energia, a substituição acelerada de fontes fósseis esbarra em restrições de escala, infraestrutura e tempo.
Nesse contexto, o pesquisador defendeu que o debate sobre descarbonização precisa abandonar soluções simplificadas e avançar com base em dados, planejamento e pesquisa aplicada. Segundo ele, óleo, gás, renováveis e novas tecnologias não devem ser tratados como escolhas excludentes, mas como componentes de um sistema em transformação, cujo equilíbrio é condição para garantir segurança energética, desenvolvimento econômico e redução consistente de emissões ao longo das próximas décadas.
O Café COCEN foi realizado em 23 de fevereiro e teve como objetivo promover uma reflexão qualificada sobre os caminhos e os limites da transição energética no Brasil e no mundo. O evento também contou com a participação do professor Marcelo Pereira da Cunha, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (NIPE) da Unicamp, que abordou aspectos econômicos e de planejamento associados à transição energética.
