Debate no encontro promovido pelo CEPETRO na Unicamp discutiu a complexidade do desafio e
apresentou algumas vias atualmente dirigidas ao financiamento de projetos no setor.
O desafio de financiar as ações relacionadas à transição energética foi tema de um dos painéis da Energy Week, ciclo de debates promovido pelo Centro de Estudos de Energia e Petróleo (CEPETRO) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O painel foi realizado na última quinta-feira (4/12), no Auditório da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da universidade, e reuniu representantes de estatais, como o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e Petrobras, ao lado de especialistas da esfera acadêmica.
O painel foi aberto pelo professor Antonio José de Almeida Meireles, ex-reitor da Unicamp. Em sua introdução, ele destacou a complexidade da transição energética, que exige a união de atores dos mais variados campos, sem deixar de lado a preservação da natureza e as questões sociais: “Nós somos, provavelmente, o único país neste mundo que pode juntar transição energética com conservação da natureza, fazer um hub capaz de unir isso tudo. E sem esquecer da inclusão social. Se essa agenda não incluir a melhoria da vida das pessoas, nós teremos problemas políticos para sustentá-la. Portanto, os
desafios não são apenas a transição energética e a sustentabilidade. É fazer isso respeitando a natureza e com inclusão, unindo os atores dos mais diversos campos”.
Em seguida, Meireles passou a palavra aos debatedores do painel: o professor Luiz Carlos Pereira da Silva, da Faculdade de Engenharia Elétrica e de Computação (FEEC) da Unicamp, Maurício Bernhardt Maciel, do BNDES, e Luiz Claudio Moreira Paschoal, da Petrobras.
Os mecanismos do BNDES para o financiamento de projetos
Maciel destacou, em primeiro lugar, o protagonismo do banco estatal na promoção da transição energética e no apoio a energias limpas no país. Ele apresentou um ranking elaborado pela Bloomberg que destaca a posição do banco brasileiro: “De acordo com a agência, o BNDES foi a instituição que mais financiou energia limpa no mundo entre 2004 e 2019”, afirmou o especialista.
Em sua exposição, Maciel destacou alguns dos mecanismos do BNDES para o financiamento de projetos que favorecem a transição energética: “Um deles é o Finem, uma das principais linhas para projetos de grande porte. Ela opera com uma Taxa de Longo Prazo (TLP) acrescida do spread do banco, o que o caracteriza como uma modalidade adequada para investimentos extensos e de longa maturação. Na área de energia, o programa exige financiamentos a partir de R$ 40 milhões e os prazos podem chegar a 24 anos. É a base tradicional de apoio a empreendimentos da área de energia e infraestrutura”, detalhou o especialista.
Outra fonte citada foi o Fundo Clima, que, segundo Maciel, opera com condições mais favoráveis, mas depende de sua disponibilidade: “Este fundo já recebeu cerca de R$ 10 bilhões do Ministério do Meio Ambiente, o que torna o volume disponível limitado e renovado periodicamente. As taxas partem de 6,5% ao ano mais spread. O financiamento mínimo é de R$ 20 milhões e há um teto anual de R$ 500 milhões por grupo econômico. Quando combinado ao Finem, em operações estruturadas como blend, o Fundo Clima permite reduzir o custo médio das operações e ampliar a capacidade de alavancagem dos projetos de transição energética”.
Além dessas linhas, Maciel também citou o importante papel da plataforma BIP (do inglês Brazilian Investment Platform), aqui denominada Plataforma Brasil de Investimentos Climáticos e para a Transformação Ecológica. Ela foi criada pelo governo federal para aproximar projetos de transição energética de potenciais financiadores. A ferramenta conecta iniciativas classificadas em três eixos — soluções baseadas na natureza e bioeconomia, indústria e mobilidade, e energia — a bancos públicos e privados, além de instituições internacionais. Nesse modelo, o BNDES atua como gestor da plataforma, não necessariamente como financiador direto, embora possa apoiar projetos específicos que venham a se enquadrar em suas políticas de crédito.
Financiamento da inovação para reduzir o custo da transição energética
Em seguida, foi a vez de Paschoal, da Petrobras, detalhar as ações promovidas pela companhia no sentido de financiar atividades de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I), que se destinam a contribuir com a redução do custo da transição energética.
Entre as iniciativas, ele destacou as Encomendas Tecnológicas. “Neste caso, a Petrobras assume parte do risco tecnológico do desenvolvimento, compartilhando-o com a contratada e financiando o projeto de PD&I até a obtenção da tecnologia”, observou Paschoal. Ainda segundo ele, a companhia também mantém editais voltados a startups para apoiar empresas nascentes que atuam em áreas como captura de carbono, biocombustíveis e outras rotas de descarbonização.
Paschoal também explicou que a empresa sustenta uma política de cooperação tecnológica com universidades e centros de pesquisa, financiando laboratórios, redes colaborativas e projetos científicos estratégicos. Citando dados do Caderno de Mudança de Clima da Petrobras, válido para o quinquênio 2025-2029, ele detalhou que “o investimento para PD&I em baixo carbono no período será de US$ 1 bilhão, um valor que será crescente no período, representando 15% do orçamento total de PD&I em 2025, atingindo 30% até 2029”.
Ainda no painel, o professor Luiz Carlos Pereira da Silva deu uma dimensão da complexidade dessa transição. Segundo ele, “a transição energética representa um desafio de escala inédita, marcado pela necessidade simultânea de ampliar a presença de fontes renováveis e reduzir a forte dependência global do carvão, do petróleo e do gás”.
Ele acrescentou que a tarefa vai muito além da simples substituição tecnológica: exige uma transformação sistêmica, que envolva dimensões sociais, econômicas, políticas, jurídicas e culturais. “E esse processo só fará sentido se ocorrer de forma justa e sustentável, respeitando direitos humanos e protegendo os ecossistemas, condições que, juntas, definem a complexidade do caminho rumo à descarbonização”, concluiu o professor da Unicamp.









