Na Energy Week, especialistas de academia, setor financeiro e indústria discutem caminhos para destravar investimentos, ampliar renováveis e criar soluções viáveis rumo a uma economia de baixo carbono.
Realizado nesta quarta-feira (3/12), em Campinas (SP), o painel “Desafios e Estratégias na Transição Energética: Uma Visão Geral” reuniu especialistas do setor financeiro, indústria e academia para discutir caminhos, desafios e oportunidades da transição energética no país. O debate integrou a programação da Energy Week, promovida pelo CEPETRO/Unicamp, e contou com a participação de Luciana Nicola (Itaú Unibanco), Ricardo Rüther (Laboratório Fotovoltaica/UFSC) e André Ferrarese (Tupy), com moderação de Julio Meneghini (RCGI/USP).
A abertura do painel destacou o papel do sistema financeiro na viabilização de tecnologias e modelos de negócio que ainda não encontram espaço no crédito tradicional. Para Luciana Nicola, a transição energética exige instrumentos financeiros mais flexíveis, capazes de apoiar projetos de diferentes níveis de maturidade.
“O banco não olha apenas para práticas sustentáveis por crença, mas porque há uma grande tendência para a economia real”, afirmou. Ela destacou o avanço de mecanismos catalíticos, como o Ecoinvest, que permitiram alavancagem de recursos internacionais e demonstraram confiança global na capacidade do Brasil de gerar soluções de impacto. Segundo Nicola, o desafio é estruturar projetos que comprovem viabilidade econômica “no curto, médio e longo prazo”, ampliando transparência e bancarização.
Tecnologias em curva acelerada – O professor Ricardo Rüther trouxe dados sobre o avanço das renováveis, especialmente da energia solar, que vive uma década de crescimento contínuo no Brasil e no mundo. Segundo ele, a queda de custos — impulsionada por escala e curva de aprendizagem — transformou uma tecnologia antes marginal em protagonista.
“A energia solar é hoje a forma mais barata de produzir eletricidade. Em 15 anos, o custo caiu para apenas 5% do valor de 2010”, destacou. Rüther também chamou atenção para a convergência entre três frentes tecnológicas — solar, baterias e hidrogênio verde — que devem redefinir a infraestrutura energética nas próximas décadas.
O pesquisador alertou, contudo, para gargalos de transmissão e para a necessidade de ampliar rapidamente a capacidade de armazenamento, impulsionada pela mobilidade elétrica. “As curvas de aprendizagem do fotovoltaico e das baterias já se sobrepõem. Quando isso acontecer com os eletrolisadores, veremos a revolução que falta para o hidrogênio.”
Indústria em reinvenção – A contribuição de André Ferrarese evidenciou como empresas brasileiras buscam caminhos de descarbonização alinhados à viabilidade econômica. Representando a multinacional brasileira Tupy, Ferrarese ressaltou que os maiores avanços vêm de soluções que combinam eficiência, custo competitivo e aproveitamento de recursos do país.
Ele apresentou iniciativas envolvendo biometano, motores adaptados para combustíveis sustentáveis, hibridização de veículos pesados e reciclagem de baterias. “O ponto central é viabilidade econômica. Se uma solução é mais barata que o diesel, ela escala”, afirmou.
Ferrarese defendeu três projetos estruturantes para o Brasil assumir liderança global: aumentar a produção de bioenergia, com uso racional da pecuária e reaproveitamento agrícola; acelerar a ‘hibridização’, reduzindo custos e emissões em transporte e máquinas; transformar minerais críticos em estratégia nacional, dominando processamento e reciclagem — ou seja, garantir que materiais essenciais para baterias e outras tecnologias de baixo carbono sejam produzidos, aproveitados e reaproveitados no próprio país, reduzindo dependências externas e fortalecendo a indústria brasileira.






